quarta-feira, 1 de agosto de 2018

CIÊNCIAS 2 Ubiratan D’Ambrósio


Divulgando...
Bom dia meu povo!
Dia de Pensamento Inquieto! Continuamos com os textos anunciados na primeira postagem. Os mesmos serão divididos em várias postagens pra facilitar a leitura.
Obs.: Lembrando que temos uma novidade! Se você estiver sem tempo para ler o texto, a partir de agora disponibilizaremos um link para que você possa ouvir o texto sintetizado em MP3 (Haverá alguns sotaques visto que são sintetizadores estrangeiros)! O(s) Link(s) estará(ão) sempre entre o primeiro e o segundo parágrafo do texto postado.
Degustem!



CONTINUANDO...

            O processo de conquista é uma coisa impressionante. Até certo ponto, todas as colônias espanholas aconteceram para eles, foi surpresa. Simplesmente estavam interessados em ir daqui para lá e encontrar um comerciante da Índia, ou do Japão, e não pensavam em encontrar todo um império que eles puderam subjugar e, mais importante do que isso, fazer com que trabalhasse para eles. Eles encontraram terras das quais puderam se apropriar e distribuir ao seu bel-prazer. Ninguém podia na Europa, nenhum rei com todos os seus poderes, podia pegar um território do tamanho, por exemplo, da metade da França, chamar um compadre dele e dizer: toma, isso tudo aqui é seu. Você tem a capitania porque lhe dou. Não podiam fazer isso.
            E de repente surgem, nesse quadro dos séculos XVI, XVII, terras que podem ser expropriadas, tornando-se propriedade de uma pessoa. Não há nada mais violento nesse mundo do que isso. Quando pensamos no que hoje é um país, o Zaire, tudo aquilo era propriedade de uma pessoa, e essa pessoa era o rei da Bélgica. Nem era propriedade de um país, era propriedade de uma pessoa. Um indivíduo tinha um país. Um indivíduo tinha uma capitania, que hoje é um estado brasileiro. Tudo isso foi possível nessa mescla de descobrir o mundo, quer dizer, descobrir novos potenciais de produção, de propriedade, etc., que foram descobertos para serem explorados, para serem usados. E todo o conhecimento científico começa, então, a se construir. Claro, a realidade, aquilo que informa, agora aquilo que nos informa para produzir conhecimentos é um mundo muito maior. É um mundo observável muito maior, pode-se viajar, ver o que está acontecendo, fazer teorizações sobre coisas novas. E claro, tem-se na cabeça todo o exercício intelectual que permitiu construir uma coisa tão fabulosa quanto um sistema filosófico e religioso, como era o cristianismo. E a ciência moderna já nasce (a primeira palavra que Newton usa é Deus) como maneira de explicação que tem muito a ver com as maneiras de explicação daquela religião. Naturalmente, sendo uma religião que se faz, lá naquele ambiente, não pode admitir elementos de outras religiões com as quais competia. E daí as outras religiões,as outras maneiras de explicação. Mas quando falamos em religião, estamos falando em ciência também, porque é tudo parte do mesmo complexo.
            As outras maneiras de explicação que envolviam um sistema filosófico global de explicações, de manejo da natureza, de relacionamento com os sistemas naturais que fossem diferentes daqueles, teriam que ser combatidas. Portanto, aquele sistema filosófico que era um sistema religioso que se desenvolvia na Europa, e que era ligado ao sistema comercial que também se desenvolvia na Europa, foi o que permitiu, justificou, deu validade, legitimidade, moralidade à exploração dos países e dos povos conquistados.
            Tudo isso entrava em contradição com os outros sistemas que estavam florescendo nos outros lugares. E, portanto, surge a intransigência, que se manifesta como intransigência religiosa. Mas, a intransigência religiosa acaba sendo mais atrativa que uma inteligência, desde que ela fosse científica. Pode-se ser religioso, desde que não se pense em ciência muito fortemente. Isso, é desvincular nos povos conquistados, coisas que não podem ser desvinculadas. Tira-se, por exemplo, a possibilidade de um asteca continuar a fazer as suas contagens, as suas operações, seu comércio, o seu sistema de produção dentro da filosofia global asteca. Exige-se que ele conte como um europeu, e isso é formidável, porque o primeiro livro escrito nas Américas é um livro de aritmética, onde se descreve o sistema de contagem dos astecas. Para os espanhóis poderem comercializar bem com os astecas, eles tinham que aprender o sistema de contagem aritmética dos astecas. Cem anos depois esse livro desaparece e não existe mais. E o único livro que ensina aritmética é o livro da aritmética europeia.
            Como é que se pode dissociar, por exemplo, quando se vai para a Índia, o sistema de numeração, a matemática? Como é que se dissocia a matemática da Índia da religião? São coisas integradas, não é possível dissociá-las. No entanto, o que se vê é a imposição de uma mesma ciência a todos os povos. E hoje, encontramos a Índia, a China, o Asteca, a África, todos falando a mesma linguagem científica da Europa, dissociados das coisas que estão intimamente ligadas à linguagem científica.
            Isto é, não faz sentido se pegarmos formas de conhecimento, tais como ciência, religião, arte e dissociá-las dizendo: pode-se ser religioso desse jeito, pode-se ser artista desse jeito e você é cientista desse outro jeito. Não dá! Tudo é parte da mesma produção de conhecimento. E essa dissociação aconteceu na entrada dos séculos XVII e XVII, e aí passamos a ter uma coisa chamada ciência, estranha e absolutamente sem justificativa, dissociada das outras coisas, das outras manifestações do conhecimento.
            Bom, essa ciência encontra, internamente, justamente por causa dessa dissociação, bons cientistas. O que é preciso ter para ser um bom cientista? Ele tem que tirar da sua cabeça reflexões de natureza intuitiva, emocional. Flaubert tem uma frase muito bonita. No seu dicionário, na hora de falar sobre a matemática, ele diz que a matemática “seca o coração”.
            É no século passado onde encontramos um esforço enorme para dissociar a ciência das outras formas de conhecimento. Isto é, ao dissociar essas outras formas de conhecimento, elas se mantém, sobretudo, junto às tradições. São formas de conhecimento vivo que se mantém vivas nas tradições, porque como ciência ninguém pode mais falar sobre elas e passam a ser proibidas de entrar na categoria de ciência, sobretudo nos países chamados periféricos.
            E se mantém vivas internamente, porque existe toda uma periferia permitindo (a periferia no sentido que, hoje, chamamos o que é científico e o que não é científico) que Keppler, por exemplo, fosse um astrólogo muito importante (ganhava a sua vida como astrólogo, a mãe de Keppler era uma feiticeira que foi condenada à fogueira), e é esse Keppler que nos deu a Lei de Keppler. Newton passa trinta ou quarenta anos de sua vida como alquimista. Depois, movido por outros interesses, se torna ministro da Fazenda. O grande pensador Pascal foi levado também por interesses do tipo comercial. Pascal estava muito interessado em produzir uma máquina de calcular. Ele o consegue, e acho que é o primeiro caso da história de reserva de mercado. Consegue um édito do rei da França dizendo que todas as máquinas de calcular seriam produzidas e comercializadas por ele, Pascal. Quer dizer, a pureza desses sentimentos, que a gente chama científicos, está mesclada com toda uma série de interesses. Ora, nessa evolução, sobretudo nos séculos XVII e XIX, a ruptura se faz flagrante. A ciência, desprezando as outras áreas, combatendo, até um momento em que ela própria (e isto acontece com todos os sistemas filosóficos, culturais, de conhecimento) abre espaço para uma crítica sobre ela. E a própria ciência nos permite ver, através do ‘seu filhote’ que é a tecnologia, os absurdos criados por ela mesma. Ela nos dá os elementos para que percebamos coisas que não podem continuar, na medida em que afetam a vida humana no que há de mais fundamental: na sobrevivência e na transcendência.
            Como é possível, hoje, com métodos, com instrumentos tecnológicos que nos permitem ver – e ninguém pode dizer que não é verdade – crianças morrendo de fome, como está acontecendo na Somália. E ao mesmo tempo nos mostram campos de trigo maravilhosos. Assistindo ao programa que fala sobre produção agrícola, por exemplo, o Globo Rural, vemos aquela beleza de campos de trigo. Ao mudarmos o canal vemos o noticiário internacional e a Somália. A ciência nos mostra no mesmo instante, as contradições desse mundo moderno. Como é que é possível, essa ciência que prega amor, num certo canal, vemos o Bispo Edir pregando a solidariedade humana, vamos o Papa, em visita a outra região, beijando o solo, e no outro canal vemos a Iugoslávia. E escutamos que os somalis estão morrendo de fome porque são ignorantes, são incapazes de se alimentar. Porque muita gente diz isso: eles são tão ignorantes, tão analfabetos, tão primitivos que não são capazes de comer a comida que nós estamos dando para eles. Fala-se isso.
            E os iugoslavos? Quão primitivos são, comparados com os somalis? Onde tem aquelas grandes universidades, Universidade de Lubiana, Universidade de Zagreb, que talvez tenham até produzido algum Prêmio Nobel, e estão se matando, na mesma rua, na mesma cidade. Isso tudo podemos ver graças ao avanço da produção científica, que nos dá essa maravilhosa televisão, na qual vemos tudo instantaneamente. A própria ciência nos deu, através dessa tecnologia avançada, da high tech, a possibilidade de ver as contradições. Poderia repetir e repetir contradições, mas não vou repetir a conversa de buraco de ozônio, não vou falar da poluição que aconteceu com o navio grego.
            Ao ligar a televisão, a qualquer hora, todos podem ver que o mundo moderno não dá para continuar do jeito que está. Ora, aonde nós vamos buscar uma outra saída? Naquilo que é dominante do mundo moderno. Todo mundo diz: o mundo moderno é dominado pelo pensamento científico. O pensamento científico é o que se impôs ao mundo inteiro. Nenhuma língua se impôs ao mundo inteiro. Nenhuma religião. A única coisa que se impôs ao mundo inteiro foi a ciência. Tudo isso está acontecendo e o único elemento que encontramos de globalização efetiva é a ciência, dá para desconfiar, não é? Mesmo que não seja contra a ciência, mesmo que eu seja seu admirador, dá pra desconfiar que alguma coisa nessa “ciência” falhou na hora de conduzir o mundo ao que ele é hoje.
            Vão dizer: não foi a ciência que falhou! Claro que foi! Se matarmos todos os homens, a ciência morre também. Aí, vão dizer: a culpa é dos homens. Claro que a culpa é dos homens. Mas os homens se comportam dentro de um modelo de pensamento que vem da própria evolução do conhecimento. E é esse modelo que não vai nos levar à felicidade, e um mundo com menos brutalidade. Nos deixa inquietos, sem dúvida. O futuro nos deixa inquietos. Essa é a origem, é o preâmbulo para as reuniões tipo Veneza, Vancouver, Belém, Dagoms. E muita gente está se perguntando: e daí? Dê-nos uma solução. Não sei. Isso me inquieta. Aonde está a solução? Qual é a saída? Produzir, quem sabe, um acelerador mais possante? E porque ver partículas ainda menores do que elas são? Será que isso ajuda? Quem sabe agora o Galileu que está passando por aqui vai chegar lá, não sei aonde que ele vai chegar, acho que a Júpiter ou a algum outro lugar. Quem sabe quando ele chegar lá, vá encontrar um livro e neste livro tenha a solução. Também acho pouco provável. De onde vem essa solução? Solução vem de dentro, do coração. Isso porque tem uma conotação de que sentimento está mais perto do coração do que da cabeça. A cabeça é toda racional. Talvez assim devesse ser feito.
            Mais, seria reincorporar o emocional, a moral, a ética em todas as nossas atividades. O que que aconteceu com a ética? Aonde se leu um livro de ciência que começasse com alguma discussão ética? Agora sim, agora está na moda, e todos começam assim, senão não vendem. Mas no próprio desenvolvimento da ciência, na hora de se transmitir, na hora de se fazer um PHD em matemática ou em física, ou na hora de se ligar um acelerador, ou na hora de se manejar um microscópio eletrônico, o que de ético passa na cabeça do fulano que está trabalhando com isso? Dizer que não, que se ele começar a se preocupar com essas coisas não vai demonstrar seu teorema, muito bem, que é capaz do microscópio eletrônico fundir, porque ele está pensando em coisas que não têm nada a ver com aquela experiência, isso tudo é bobagem!
            A preocupação com a ética e a preocupação com esse tipo de reflexão talvez seja, nesse momento, o que de mais forte temos à nossa disposição. Como indivíduo preocupado com isso, como educador, não me sentiria confortável começar ou acabar qualquer tipo de aula, conferência ou de palestra sem um apelo para reflexões do indivíduo sobre aquilo que ele está fazendo. Sobre o que isso significa no contexto geral. Como isso se situa historicamente. Historicamente, quer dizer, com relação ao passado e ao futuro. Quais as consequências disso? Pense um pouco sobre isso! Reflita! Tenha este tipo de preocupação na sua cabeça. E então vá manejar os seus instrumentos, os seus microscópios, os seus aceleradores, tudo isso.
            Então, o problema é essencialmente de educação. É um problema de trazer a todas as atividades, sejam políticas, científicas, atividades de toda natureza, trazer sempre um pouco de invocação. Muita gente faz isso, mas é puramente simbólico. Vemos que quase todas as Câmaras têm um crucifixo, tem uma imagem do presidente, tem coisa desse tipo, que são puramente simbólicas. A coisa é interior. O indivíduo tem de refletir sobre aquilo que ele representa neste mundo. Como ele se situa no elo passado e futuro? E qual vai ser o resultado de suas reflexões, de sua ação, de sua produção nesse elo entre passado e futuro?
            Acredito que assim possamos, quem sabe, desenvolver alguma coisa nova. É muito simples. Quer dizer, não precisamos aumentar a produção de coisa alguma. Tudo o que produzimos dá e sobra para o mundo se empanturrar. Precisamos eliminar, talvez, algumas coisas. Eliminar a ganância, o ódio, a inveja. Às vezes, penso que deveria ser um pregador e ir pregando, fazendo alguma coisa. E de fato esse dom de ‘pregar’ é necessário na nossa linguagem, e nosso apelo aos que estão fazendo alguma coisa, cujo efeito daquilo que eles fazem se reflete no mundo inteiro.
            Vou repetir uma frase de Einstein e Russel, quando lançaram O Manifesto, em 1955, que no fundo, acabou sendo ponto de partida para quase todas as outras atividades. Tem uma frase em que eles dizem simplesmente: “Lembrem-se da sua humanidade, e esqueçam todo o resto”.

Obs.: Os negritos itálicos são os destaques do texto original; os [  ], os negritos e os negritos vermelhos são destaques nossos.

SUGESTÕES DE LEITURAS
A estrutura das revoluções científicas – Thomas S. Khun. Série “Debates”. Ed. Perspectivas, 1989. SP.
Ciência e desenvolvimento – Mario Bunge. Ed, Itaitera, EDUSP, 1980.
Ciência e valores humanos – Jacob Bronowski. Itatiaia, 1979.
Hermes: uma filosofia das ciências – Michael Serres. Edições Graal, 1990. RJ.
O ponto de mutação – Fritjof Capra. Cultrix, 1991, SP.
A nova aliança Ilya Prigogine, Isabelle Stengers. Ed. UnB, 1991.




segunda-feira, 30 de julho de 2018

ATORDOADO, EU PERMANEÇO ATENTO

Leia e reflita!


Texto de Breno Góes

ATORDOADO, EU PERMANEÇO ATENTO

Gilberto Gil já repetiu em dezenas de entrevistas (eu tenho a pretensão de ter lido boa parte das que ele já deu) uma mesma informação: a única música do seu repertório de mais de 500 que ele não gosta de cantar é "Cálice", uma parceria sua com Chico Buarque que ele sintomaticamente jamais gravou. Gil diz que fica incomodado por que a música é "tristonha" (link pra uma dessas entrevistas nos comentários). Nunca vi ele com esse tipo de ojeriza de qualquer outra canção que tivesse composto.

Faz sentido, quando paramos para pensar. O Gil é conhecido por uma poética que preza por uma postura de aceitação filosófica e equilíbrio diante da dor e das coisas ruins da vida, bem como diante das coisas boas e felizes. Por um lado, mesmo na lindíssima e alegríssima "Toda Menina Baiana", que Gil compôs pra uma de suas filhas, ele fez questão de lembrar que "toda menina baiana tem defeitos também". Por outro, ele pode ter escrito canções de alguma forma doídas (aí está "Drão", que não me deixa mentir), mas mesmo essas suas músicas quase sempre tem um viés de enxergar o lado bom de uma situação ruim: pensemos na dor da separação que vira pão na própria "Drão", no "êêêê" animado que quebra a tragédia no final do "Domingo no Parque" ou na empolgação que atravessa "Aquele Abraço", a canção do exílio mais festiva e carnavalesca da história (e também a mais bonita). Isso pra ficar só nas mais famosas. Em Gil, a tristeza vem sempre temperada de felicidade e vice-versa... quase sempre. Que eu saiba, em dois significativos momentos essa lógica é rompida:  "Pé da Roseira" (não tão conhecida mas maravilhosa, de 1968) e "Cálice" (composta em 1973, lançada em 1978). São canções TRISTES em que a dor, a impotência e o desespero imperam, sem que nenhuma filosofia venha equilibrar as coisas. O "Pé da Roseira" é o desespero no âmbito privado, diante do fim do amor. O "Cálice" é o desespero público, diante do estado do mundo.

Quando Chico Buarque quis gravar o Cálice, teve que chamar o Milton Nascimento e o MPB-4, porque o Gil não quis embarcar naquela canção barra-pesada em que o substantivo "cálice" vira o verbo "cale-se" e algumas imagens poderosamente desamparadas são cantadas ("como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta?", diz um dos versos mais tristes da língua portuguesa) em um diálogo com o "Pai", a primeira e mais opressiva das pessoas da Santíssima Trindade. Era toda a depressão do regime oriundo do golpe civil-militar de 1964 sintetizada em quatro estrofes e um refrão inesquecível.

Isso me faz pensar no seguinte: todo o Brasil que se leva a sério enquanto tal tem que começar hoje a debater por que motivo Gil decidiu desobedecer ontem as suas convicções e cantar Cálice ao lado do Chico Buarque num ato na Lapa pela liberdade do Lula. O que há de tão forte na pauta do "Lula Livre" que faz um homem como o Gil – respeitado e amado por todos, venerável e acima de qualquer suspeita, eleitor da Marina Silva – enfrentar seus próprios demônios e cantar uma música que o incomoda tanto? Ou, pior ainda: o que será que esse cara está vendo no momento atual do mundo que o moveu a cantar versos tão absurdamente "tristonhos"? Mermão, o Gilberto Gil é o cara do "A Paz", o cara do "A Novidade"... Ele tem várias canções igualmente políticas muito mais amenas que seriam adequadas para um comício. Tem inclusive uma outra parceria com o Chico muito bonita e sutilmente crítica ao capitalismo, que é a "Baticum". Mas ontem ele decidiu dizer pro povo que quer "lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado". Ele mandou o cálice. Isso é imenso, e muito pesado. Digo e repito: todo mundo que tem o mínimo de juízo na cabeça tem que tirar uns momentos hoje pra pensar por que motivo o Gilberto Gil finalmente decidiu cantar o Cálice. É uma pergunta difícil pra todos nós, porque a resposta é quase com certeza muito dolorida. Melhor seria ser filho de outra realidade menos morta, sem tanta mentira e tanta força bruta.

Mas que foi lindo foi. Chorei mesmo.


Cálice
Chico Buarque e Gilberto Gil

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
 


quinta-feira, 26 de julho de 2018

CIÊNCIAS 1 Ubiratan D’Ambrósio


Divulgando...
Boa tarde povo!
Dia de Pensamento Inquieto! Continuamos com os textos anunciados na primeira postagem. Os mesmos serão divididos em várias postagens pra facilitar a leitura.
Obs.: Lembrando que temos uma novidade! Se você estiver sem tempo para ler o texto, a partir de agora disponibilizaremos um link para que você possa ouvir o texto sintetizado em MP3 (Haverá alguns sotaques visto que são sintetizadores estrangeiros)! O(s) Link(s) estará(ão) sempre entre o primeiro e o segundo parágrafo do texto postado.
Degustem!



CONTINUANDO...

            Tudo é a busca de uma coisa mais imediata que a sua sobrevivência, que todos os animais buscam, que é a sobrevivência de sua espécie e a transcendência ao seu período de existência. Nessa procura de ir para o antes e para o depois, o homem desenvolve a noção de tempo. Desenvolve história, passado e futuro. Nessa construção de conhecimento, que é absolutamente mesclado, que hoje a gente chama de ciência e religião, um ato de filosofia é a mesma coisa, é tudo uma busca pela sobrevivência e transcendência. Mas não separadas, porque a nossa própria busca pela sobrevivência, através da alimentação, está mesclada também por essa busca pela transcendência.
            Na busca de alimentação, por exemplo, o homem desenvolve uma alimentação ritual. O homem é capaz de fazer um ritual com a sua alimentação. Nenhuma outra espécie animal é capaz de fazer isso. Quer dizer, é uma alimentação que associa a sobrevivência com a transcendência. A nossa procriação, quer dizer, o ato que permite a continuação da espécie, nosso ato sexual, é um ato mesclado com algo que escapa à mera sobrevivência. É com emoção, com amor, e se insere nessa busca de algo que á mais do que o que palpável e imediato. E assim a Humanidade se desenvolve, cria conhecimento, motivada sempre por sobrevivência e transcendência.
            Na construção desse conhecimento há a dimensão de muitas naturezas. Claro, há uma dimensão sensorial, os primeiros impulsos, as primeiras informações que a gente recebe do ambiente. É óbvio que, no Pólo Norte, o esquimó desenvolve as suas explicações, as sua maneiras de sobreviver e transcender de maneira completamente diferente de uma pessoa na Amazônia. A informação que vem através do sensorial, do intuitivo, do emocional, do próprio racional, depende do lugar onde está localizado esse grupo, essa espécie. Então, na verdade, o que nós temos são gerações de conhecimentos. Conhecimentos que se dão de uma forma aqui e de outra forma ali.
            Hoje, temos o desenvolvimento de coisas como etnomatemática, como etnociência, coisas que vinham sendo sempre mencionadas. Bom, isso é absoluto, é igual para o mundo inteiro. Quer dizer, temos que nos desenvolver pensando no ambiente que dá a partida, que inicia esse processo de construção do conhecimento e que envolve um processo sensorial, intuitivo, emocional e racional, e, obviamente, está intimamente ligado à realidade que estamos vivendo.
            Mas, voltando ao percurso, a essa grande migração do homem para ocupar todo o planeta, muito disso é possível ser verificado através de restos. Quando o homem fica mais tempo em um lugar, obviamente os arqueólogos conseguem recuperar algumas das coisas deixadas. Hoje, fazemos análises muito boas dessas peças deixadas; através de ossos podemos, inclusive, com o exame do DNA, estudar os restos de milhares de anos. O que notamos é que esses registros chegam a nós de maneira muito espalhada, os restos estão espalhados pelo mundo inteiro. Às vezes encontramos uma certa concentração, em algumas regiões, que nos permite estudar mais essas chamadas ‘paradas’ ou construção de culturas, civilizações.
            E as grandes civilizações encontradas estão espalhadas pelo mundo, mas as conhecemos melhor, tivemos mais acesso, e elas foram mais estudadas porque existem mais elementos sobre algumas grandes civilizações que são chamadas de civilizações da antiguidade. E neste período começamos a falar em história. Porque os registros que temos são melhores, já existindo, em alguns casos, coisas escritas ou grafadas, ou pintadas ou algum tipo de registro que tem facilitado a análise, como os monumentos.
            Essas grandes civilizações da antiguidade, se colocarmos mais ou menos na ordem de dez mil anos antes do presente, começam a aparecer em torno do Mediterrâneo, na civilização do Egito, seguindo o rio Nilo, civilização da Babilônia, da Mesopotâmia, onde hoje se localiza o Iraque; a civilização da china e as civilizações dos Altiplanos americanos. É muito interessante, outras civilizações diferentes dessas que mencionei, são civilizações de altura; os Maias, os Incas, os Astecas, essas que parecem um pouco mais novas, são civilizações que começaram a se estabelecer há mais ou menos uns dez mil anos, e floresceram em torno de uns cinco mil anos, e temos aí um período chamado história. Nesse período, a história nos mostra o que conseguimos recuperar através dos monumentos, dos escritos, e são as maneiras, os modos como essas civilizações explicavam o seu ambiente, como manejavam o seu sistema social, tudo isso produto de conhecimento acumulado desde as primeiras migrações. Isto é, de milhares de anos.
            Esses conhecimentos, que reconhecemos hoje através dos achados arqueológicos, são maneiras distintas de explicações. Os chineses explicavam de um jeito, os hindus de outro, os egípcios e os babilônios de outro, e de uma maneira muito diferente, ainda, os maias, incas e astecas. Explicavam, manejavam e trabalhavam a sua realidade, construíam o seu sistema social, tinham a sua filosofia dentro de esquemas diferentes. Algum intercâmbio entre essas filosofias poderia existir. Estamos descobrindo, recuperando algumas evidências de contatos entre civilizações do Oriente e da América. Parece que havia contato na navegação, inclusive há possibilidade de ter se desenvolvido algum tipo de comércio. Parece que havia contatos, também, há alguns milhares de anos, entre as civilizações do velho mundo e do novo.
            Sem dívida, entre as civilizações do Extremo Oriente e da Europa a dinâmica cultural não pode ser deixada de lado em todas essas considerações. Mas a dinâmica cultural que põe em contato dois sistemas distintos e com isso produz alguma coisa distinta, torna-os diferentes. Os dois sistemas não ficam iguais, necessariamente.
            Insisto no fato de que essas culturas, essas civilizações, desenvolvem suas maneiras de explicar, suas maneiras de conhecer, de maneira distinta. Ora, neste processo o que sempre notamos é que a maneira de construção deste conhecimento segue um trajeto que é mais ou menos o mesmo. É a realidade impactando o indivíduo através dos sentidos, emoção, intuição, ação ou o que for, impactando indivíduos que se comunicam – portanto povos – e esses povos gerando conhecimento para manejar, explicar, entender, para se desenvolver nessa realidade. Ao fazer isso, esse conhecimento é de alguma maneira estruturado e expropriado pela estrutura de poder, que depois devolve ao povo o conhecimento, devidamente elaborado e filtrado. Essa política da devolução do conhecimento é extremamente importante, e sobretudo afeta os dias de hoje.
            Bom, no curso dessa produção o que estamos notando, e a história nos dá muitos elementos para isso, é o aparecimento de um conhecimento em torno do Mediterrâneo, que tem as suas características diferentes daquilo que acontecia na China ou entre os Maias, que acaba sendo expropriado e manejado pela estrutura de poder dominante. É um conhecimento que os gregos, os babilônios, os egípcios, os romanos desenvolvem, e acaba ficando na mão daqueles que têm mais poder, acaba ficando na mão de mundo romano.
            E ao iniciar o que hoje chamamos de Era Cristã, os romanos absorveram todo o conhecimento grego, muito bem, (ao contrário do que muitos historiadores dizem, por que os romanos dominavam a língua grega e sabiam ler Aristóteles, Euclides, etc.). dominavam aquele conhecimento, e por sua vez absorveram muita coisa da Ásia, do Egito e da Babilônia. Os romanos empregaram daquele conhecimento o que lhes interessava na construção do seu império. E a construção do Império Romano é extremamente importante e interessante porque, na verdade, é a construção do mundo moderno. É ali que se estabelecem as bases deste mundo onde estamos vivendo, e se estabelecem os princípios básicos de legislação, de vida social e de vida urbana. Acho que a melhor fonte para sentirmos o que foi o Império Romano é um livro, que é rechaçado por razões fáceis de serem explicadas, chamado Os dez livros de arquitetura de Bitruvius. Ele nos dá um belo quadro da filosofia do Império Romano, o que se pretendia nele e qual o grau de conhecimento daquele império.
            O que notamos é que o Império Romano se desenvolve, tem o seu apogeu entre os anos 50 e 60 desta era, quando os judeus são dispersados e espalham um outro tipo de conhecimento que tem de ser preservado e mantido e que se instala nos principais centros do Império Romano. Isso também tem sido pouco estudado pelos historiadores da ciência, e esse conhecimento é extremamente importante na construção do mundo moderno. Instala-se no mundo romano e se mantém, enquanto este começa a desenvolver outro conhecimento cuja grande finalidade é a construção de uma nova religião, que é a religião adotada pelo Império Romano. Uma religião que foi adotada quando Constantino fez as pazes com a Igreja, e o imperador Teodósio reconheceu a Igreja como uma instituição ligada ao Império Romano, oficializando o cristianismo. O cristianismo não existia.
            O que é o cristianismo? É uma série de escritos que estão soltos, quatrocentos, quinhentos, seiscentos escritos falando de um homem que, historicamente, naquela época, não tinha tido importância. Um homem que ninguém havia conhecido, que não representava nenhuma estrutura de poder. E o cristianismo entra nesse processo maravilhoso de construir uma teologia, construir uma coisa nova, e sua grande primeira figura é Santo Agostinho. E entrada de Santo Agostinho na história é decisiva, porque ele começa a impor credibilidade. Imagine uma religião que é adotada por um império, que era o império dominante! Como é que se podia dizer: “Bom, esses são os fundamentos filosóficos da religião”, utilizando alguns evangelhos, alguns deles de uma pobreza literária e filosófica enorme, e confrontar isso com outros sistemas filosóficos, como por exemplo o dos gregos, que o Império Romano dominava. Alexandria era uma cidade do Império Romano. Atenas era uma cidade do Império Romano. Os filósofos romanos, naturalmente, frequentavam Alexandria e Atenas. Dizer que romano não entende de grego é uma besteira total.
            Mas, claro, na hora em que o império oficializa uma religião, ela tem que ter fundamentos filosóficos. E esses fundamentos não podiam sair dos judeus que existiam lá pela Europa, porque eles estavam procurando preservar o seu judaísmo. E seria uma contradição, o romano liquidar o reino de Israel, espalhar os judeus e de repente adotar sua religião. Não podia! Tinha que ser uma religião nova que, de alguma maneira, tivesse um certo atrativo para aqueles que estavam dando trabalho aos romanos, e que passaram a dar menos trabalho porque se cristianizaram, se incorporaram ao império. Uma religião atrativa para eles, que é a religião cristã, misturando elementos de paganismo e ao mesmo tempo com uma base filosófica sólida. E daí entra Agostinho na história, e culmina essa construção da base filosófica com São Tomás de Aquino.
            Ora, em todo esse processo, tudo o que se faz, a construção do conhecimento científico, do conhecimento religioso, conhecimento artístico, quer dizer, as catedrais, o gótico, Gioto... O que são? Estão todos em torno desse grande projeto nacional, que é o projeto de construção do Império Romano, agora cristão. Aonde conhecimento se mescla com ciência, religião, arte, com tudo. E essa construção é a base do pensamento moderno e o que fundamenta suas bases sai dos mosteiros. Lord Backer veio de um mosteiro, Okar era monge, todos eram monges e são os precursores, são aqueles que trabalharam na Idade Média na construção desse conhecimento que hoje a gente chama de moderno.
            Um outro grupo vinha da prosperidade, eram os comerciantes. Finobate, que era o filho de Bonate, um grande mercador que introduziu todo sistema de numeração na Europa, mudou totalmente o tipo de explicações que se dava, através de uma coisa chamada ciência. Os árabes, com toda a ciência dos gregos, não utilizaram a numeração arábica da maneira como os europeus utilizaram. E daí, provavelmente, porque a grande revolução científica de Newton não ocorre entre os árabes, que tinham os mesmos elementos para fazer essa revolução.
            Mas o grande desenvolvimento do Mercantilismo na Europa iniciou-se com as cruzadas. E o que foram as cruzadas? Abrem novas rotas, quer dizer, mais comércio, vão buscar mais coisas, lá na Índia. Abrem as navegações. O que significa a navegação? Quer dizer mais comércio. Por que os portugueses estão interessadíssimos em dar a volta ao mundo e chegar à Índia? Porque era uma rota melhor. Por que entrar pela rota europeia e competir com os países maiores? Descobrir uma rota própria, aí sim, fazia-se um bom negócio.
            E os portugueses desenvolveram toda a navegação. Por que os espanhóis foram navegadores? Também queriam superar a Itália e vão por sua própria rota. O mundo é redondo, todo mundo sabia. E daí se desenvolve a grande força do comércio, com aquele suporte da construção do cristianismo que foi dominante no Império Romano. E surgem elementos importantíssimos vindos dos escandinavos, dos germanos, um pensamento científico nos séculos XV, XVI.
            Os historiadores da ciência têm produzido uma grande distorção nos séculos XVII e XIX, para atribuir esse pensamento científico ao pensamento grego, como se fosse um passo além, um produto do pensamento grego. Não é nada disso, é um pensamento inteiramente novo, produto da construção de um sistema religioso e de um sistema comercial que se associam, a partir do século XVII, com Newton, numa empresa enorme que é a empresa colonial. Até aí não se pensava em descoberta de novos povos que pudessem ser trabalhados, ou novas terras que pudessem entrar no sistema de produção, da maneira como entraram as colônias.
CONTINUA NA PRÓXIMA QUARTA...
Obs.: Os negritos itálicos são os destaques do texto original; os [  ], os negritos e os negritos vermelhos são destaques nossos.