quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um duro chamado à esperança: imbecis do Brasil, uni-vos!

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Um duro chamado à esperança: imbecis do Brasil, uni-vos!
Por Diario do Centro do Mundo - 3 de dezembro de 2017

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Texto originalmente publicado no site Carta Maior:
Este atual instante de crise do Brasil 2017 é a “grande oportunidade de mudança no meio das trevas em que vivemos hoje,” escreve o autor do best seller A elite do atraso – da escravidão à lava jato, o sociólogo Jessé Souza, de 57 anos, das mais brilhantes e inovadoras vozes da sua geração na análise e crítica social e política do país. Um dos vencedores do Premio Jabuti deste ano, a ser entregue amanhã (dia 30/11), ele está na lista dos mais vendidos da Publisher News neste fim de ano.
No último parágrafo desse seu livro lançado há menos de dois meses, o fecho da trilogia A tolice da inteligência brasileira, de 2015 e A radiografia do golpe – entenda como e porque você foi enganado (2016) * ele exorta: “A esperança de hoje tem que ser uma adaptação contemporânea do velho chamado aos explorados: os feitos de imbecis de todo o país: uni-vos! (…) recuperemos nossa inteligência, voltemos a praticar a reflexão autônoma que é a chave de tudo que a raça humana produziu de bonito e de distinto na vida da espécie.”
Ex – presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Jessé Souza nasceu no Rio Grande do Norte e tem formação em Direito, Sociologia, Psicologia e Filosofia, respectivamente no Brasil, Alemanha e Estados Unidos. É professor titular de Sociologia da Universidade Federal do ABC.
Na sua obra, ele produz um retrato avançado e vigoroso das classes sociais do país e das renitentes e imensas desigualdades entre elas – entre os mais de vinte livros publicados, de sua autoria. Constrói uma poderosa alternativa arejando as idéias, até então pilares tidos como indiscutíveis do conhecimento especializado, de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro. Sai-se bem e preciso nesse seu desafio que se estende às esquerdas. Para ele, elas sempre foram colonizadas pelo falso moralismo do discurso da direita. “Não é atoa que Sergio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, baluartes do moralismo conservador, são heróis da esquerda. ’’
Permeiam o seu trabalho referências ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, ao filósofo canadense Charles Taylor e a Florestan Fernandes – este, no que se relaciona à construção do conceito de ‘’subcidadania. ’’
A tese de Souza é esta: no Brasil moderno há quatro classes. A dos ‘’endinheirados, classe dominante, que explora materialmente as demais. As intermediárias se situam entre a elite do dinheiro dominante e os que dominam simbolicamente todas as outras. ’’ A segunda, a classe média e suas diversas frações que possuem o que ele chama de capital cultural. ‘’ Os juízes que julgam, os professores que ensinam, jornalistas que escrevem. A classe trabalhadora, precária na imensa maioria, é a terceira.” À quarta, a dos excluídos, chama, provocador, de ‘’ralé brasileira’’. Situa-se abaixo da linha de ‘’dignidade’’, como enfatiza.
Na sua análise oposta ao economicismo, sobre os excluídos ele escreve: ‘’Os excluídos não são apenas pobres economicamente. Faltam os estímulos afetivos e morais para o sucesso escolar e depois profissional que a classe média possui como seu principal privilégio desde o berço. ’’
‘’A única classe ‘consciente de si’ entre nós é a elite da rapina, ’’ observa Jessé, e oferece um perfil certeiro dos ‘’endinheirados’’: precisam mostrar que não é o dinheiro que marca seu estilo de vida, mas um gosto inato. “Precisam de algum capital cultural para ser aceitos em seu grupo e não passarem por ‘broncos’. Entender de vinhos caros, comidinha gourmet, ternos cortados à mão. Esses conhecem ‘’as ilhas exclusivas do Oceano Índico onde seus pares levam suas amantes preferidas.’’
‘’Se nossas classes médias – que efetivamente poderiam ser mais inteligentes do que são – são feitas de tolas todo dia pelas doses diárias de veneno midiático, imaginemos as classes abandonadas que não têm defesa cognitiva possível a esse tipo de ataque a não ser o racionalismo prático do dia a dia que a fazem escolher os líderes que efetivamente melhoram seu bem estar concreto e aumentam suas chances de vida.’’
A classe média é o ‘’instrumento e tropa de choque’’, na classificação de Jessé, dos interesses do mercado – interesses que elas nem compreendem direito o que significam. (É uma classe) ‘’que pisa nos debaixo e faz salamaleques para os de cima.’’ E o pior: ‘’Acha-se dona de uma tradição intelectual pseudocrítica que demoniza o estado.’’
Em A radiografia do golpe, o autor realça a novidade da cooptação da fração corporativa do aparato jurídico-policial do estado. Sublinha a restrição dos direitos individuais que contribuem para que ela aumente ainda mais o seu próprio poder. ‘’Uma casta com altos salários e vantagens que fogem da transparência, que adorou posar de guardiã da moralidade. Aumentou seus privilégios colonizando a agenda do estado. ’’
Ele próprio alvo de ataques e ao seu A elite do atraso, Jessé escreveu, há dois meses, num artigo publicado em jornal paulistano: “(…) meu crime, agora, foi ter me transformado em um autor que toca nas questões essenciais, em um país saqueado e sem rumo, com uma linguagem que as pessoas comuns podem entender. Isso é intolerável para uma parte da academia – inclusive da esquerda ou que se imagina enquanto tal – que nunca se identificou com o estudo das questões reais do país e que usam seu capital cultural como outros usam o dinheiro. ’’
Nesse texto, e na sua linguagem eloquente e acessível, Souza lembra ‘’(…) ter sido estimulado por alguns dos melhores pensadores vivos para tornar o mundo social e suas fraudes compreensíveis para um porteiro e para uma enfermeira. Esse é meu verdadeiro crime para meus detratores. ’’
Na sua radiografia do assalto ao poder do ano passado, trabalho escrito em 2016, no calor do cavalo-de-pau político desfechado pelos golpistas e na ruptura brusca (embora traiçoeira e fermentada há anos) do processo democrático, ele anota que ‘’seja para assaltar um banco, seja para assaltar a soberania popular, é sempre mais fácil achar aventureiros para a empreitada do que dividir o bolo. Na hora de dividir o butim do golpe é que surgem os conflitos. Essa é a fase em que estamos hoje. A luta de morte aqui é para salvar as aparências. Nem todos conseguirão. ’’
Jessé Souza finaliza o ano com agenda intensa. Participará de debates este mês na PUC/SP e na Unicamp e fará vários lançamentos de A elite do atraso – ou como o país se deixa manipular pela elite – terceira reimpressão em menos de dois meses.
Neste, ele destaca a atuação da Globo no golpe. “A Globo, em associação com a grande mídia a maior parte do tempo, e a Lava jato, fizeram (…) a todos nós de perfeitos imbecis. A título de combater a corrupção dos tolos, turbinaram e legitimaram a corrupção real como nunca antes neste país das multidões de imbecilizados.”
Ler Jessé Souza é indispensável para quem deseja, com honestidade e sem parti pris, compreender a lamentável situação do Brasil pós-golpe – fracassado, no seu significado estrito – e o silêncio ou a aparente indiferença, muitas vezes dissimulada, de grandes frações da classe média.
“Será que vale a pena tudo isso para manter os escravos no seu lugar? ’’ ele indaga. ‘’O amor de grande parte da classe média pela elite é amor de mulher de malandro. ’’ Mas Souza acena com a esperança nos novos ventos que virão: ‘’Afinal, tudo que foi feito por gente também pode ser refeito por gente.’’
E atenção: para 2018 ele promete a reedição do seu A construção da sub-cidadania.
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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Jornada Continental convoca a luta unitária dos povos do continente contra a agenda neoliberal e em defesa da democracia

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Jornada Continental convoca a luta unitária dos povos do continente contra a agenda neoliberal e em defesa da democracia

Montevidéu, capital uruguaia, sediou na última semana o Encontro da Jornada Continental pela Democracia e contra o neoliberalismo. Cerca de 3000 militantes, de 23 países, estiveram reunidos para debater os impactos da ofensiva neoliberal na nossa região e discutir estratégias e agendas de luta, entre eles um expressiva delegação brasileira, da CUT e da CSD – CUT Socialista e Democrática.

A Jornada teve início em 2015, quando dezenas de organizações de luta reuniram-se em Havana, nos marcos dos 10 anos da derrota da ALCA e buscam, desde então, a rearticulação das ações frente à ofensiva neoliberal e o ataque às democracias. Para este ano, definimos a construção prioritária do Encontro de Montevidéu como um espaço capaz de ampliar o alcance da jornada e impulsionar um calendário de luta internacional unitário para 2018.

Como forma de organizar nossa unidade e nosso debate, ao longo do processo da jornada, definimos quatro eixos fundamentais de debate, elaboração e organização das nossas lutas: a defesa da democracia e da soberania, a luta contra o livre comércio, o combate ao poder das transnacionais e a integração dos povos.
Em Montevidéu realizamos atividades de luta, a exemplo de uma grande marcha de abertura, e ao longo de dois dias debatemos em painéis e mesas de discussão a conjuntura, os parâmetros da nossa unidade e os desafios das nossas lutas em torno de cada um dos eixos da jornada.

A síntese dessas discussões nos levou a uma plenária de convergência, na qual foi apresentada e debatida a declaração final do encontro que sistematizou os parâmetros da nossa unidade e nossas principais agendas de luta, iniciando ainda este ano com a mobilização em repúdio a Cúpula Ministerial da OMC em Buenos Aires no mês de dezembro.

Para 2018 definimos como prioridades as mobilização unitária no dia 8 de março e no 1º de maio; a presença e defesa da nossa agenda comum contra o livre comércio, no Fórum Alternativo Mundial da Água - FAMA, em Brasília, no mês de março; a mobilização contrária e o repúdio à Cúpula das Américas em junho, no Peru, e à cúpula do G20 que acontecerá no segundo semestre, em Buenos Aires, espaços que buscam restabelecer a hegemonia neoliberal no continente e, por fim, convocar os povos e movimentos do continente a mobilizarem-se de maneira unitária, combativa e solidária, em todos os países na semana de 19 a 25 de novembro, reivindicando a agenda acordada em Montevidéu, como expressão da ação dos nossos povos em defesa da democracia e contra o neoliberalismo.

Acesse ou veja abaixo (Formato PDF) a íntegra da Declaração Final do Encontro de Montevidéu (espanhol): http://bit.ly/JornadaDeclaração

ANEXO
A CUT e a CSD participaram ativamente da cobertura colaborativa do Encontro de Montevidéu. Acesse conteúdos que selecionamos para você:

📹 Nalu Faria sobre a agenda unitária definida no Encontro de Montevideu - http://bit.ly/JornadaNaluFaria

📹 Dr. Rosinha fala sobre o debate de integração dos povos na jornada - http://bit.ly/JornadaDrRosinhaIntegracao

📹 Daniel Gaio fala sobre o Fórum Alternativo Mundial da Água - FAMA na agenda da Jornada - http://bit.ly/JornadaDaniel

📹 Rafael Freire fala sobre os desafios da Jornada – http://bit.ly/JornadaRafaelFreire

📹 Dr. Rosinha, Professor Lemos e Miguel Rossetto falam diretamente da Jornada Continental - http://bit.ly/JornadaLemosRosinhaRossetto

📹 Íntegra do Ato político de Abertura - http://bit.ly/JornadaAtoAbertura

📹 Íntegra do painel Povos em Movimento - http://bit.ly/JornadaPovosemMovimento

📹 Íntegra do painel Desafios frente a onda conservadora e os ataques às democracias com Pepe Mujica   http://bit.ly/JornadaMesa2

📹 Íntegra do debate sobre Livre Comércio, com Daniel Gaio da CUT e Ticiana Studart da Marcha Mundial das Mulheres - http://bit.ly/JornadaLivreComercio

📹 Íntegra da Plenária Final de Convergência - http://bit.ly/JornadaPlenária

📹 Veja vídeo com um pouco da participação da Marcha Mundial das Mulheres na Jornada - http://bit.ly/JornadaMMM

📄 Em Montevidéu, Jornada Continental debate avanço do neoliberalismo - http://bit.ly/JornadaDemocraciaSoberania

📄 Com uma grande marcha, começa o Encontro de Montevidéu por Democracia e contra o Neoliberalismo - http://bit.ly/JornadaAbertura

📄 "Vida humana não pode se resumir a trabalhar e pagar contas", diz Mujica - http://bit.ly/JornadaMujica

📷 Veja a galeria de imagens da Jornada Continental no Flick - http://bit.ly/JornadaFlickr
 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

PREGUIÇA BAIANA DÁ DOUTORADO A UMA PAULISTA!!!

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PREGUIÇA BAIANA DÁ DOUTORADO A UMA PAULISTA!!!
(por Girimias Dourado)

"Preguiça baiana" é faceta do racismo. A famosa "malemolência" ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo, segundo concluiu uma tese de doutorado defendida na USP. A pesquisa que resultou nessa tese durou quatro anos.

A tese, defendida no início de setembro pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de "festa eterna".

Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha. Como 51% da mão-de-obra da população atua no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho. "Quem se diverte é o turista", diz a antropóloga.

O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu, após quatro anos de pesquisas históricas,que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia.

O estudo mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista.

A imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que consideravam os escravos indolentes e preguiçosos, devido às suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão????).

Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando- os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de "proteção" dos seus empregos.

Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. "Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas. A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil", diz Elisete. Até Caetano se contradiz quando vende uma imagem e diz: "A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo".

Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente "Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades."

O maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na américa latina.

Para tirar as conclusões acerca da origem do termo "preguiça baiana", a antropóloga pesquisou em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnavaal na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também.

A única diferença é no São João (dia 24 /06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia).

Em fevereiro (Carnaval), uma empresa, com sede no Pólo Petroquímico da Bahia, teve mais faltas na filial de São Paulo que na matriz baiana (sendo que o n° de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada). Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou os dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil).

Pesquisas demonstram que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados "desocupados" (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13° lugar.

Acredita-se hoje (e ainda por mais uns 5 a 7 anos) que a Bahia é o melhor lugar para investimento industrial e turístico da América Latina, devido a fatores como incentivos fiscais, recursos naturais e campo para o mercado ainda não saturado. O investimento industrial e turístico tem atraído muitos recursos para o estado e inflado a economia, sobretudo de Salvador, o que tem feito inflar também o mercado financeiro (bancos, financeiras e empresas prestadoras de serviços como escritórios de advocacia, empresas de auditoria, administradoras e lojas do terceiro setor).

Faça o favor de encaminhar este artigo ao maior número possível de pessoas. Para que, desta forma, possamos acabar com este estereótipo de que o baiano é preguiçoso. Muito pelo contrário, somos dinâmicos e criativos. A diferença consiste na alegria de viver, e por isso, sempre encontramos animação para sair, depois do expediente ou da aula, para nos divertir com os amigos.

FOTO AUTORIA - Catia Oliveira
Texto : Girimias Dourado
 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Para relfetir: afinal para que serve a escola?

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Por Mia Couto "Preocupa-nos que os nossos estudantes entrem para universidade com fraco desempenho acadêmico. Pois eu acho mais preocupante ainda que os nossos jovens cresçam sem referências morais. Estamos empenhados em assuntos como o empreendedorismo como se todos os nossos filhos estivessem destinados a serem empresários. Ocupamos em cursos de liderança como se a próxima geração fosse toda destinada a criar políticos e líderes. Não vejo muito interesse em preparar os nossos filhos em serem simplesmente boas pessoas, bons cidadãos do seu país, bons cidadãos do mundo.

Escrevi uma vez que a maior desgraça de um país pobre é que, em vez de produzir riqueza, vai produzindo ricos. Poderia hoje acrescentar que outro problema das nações pobres é que, em vez de produzirem conhecimento, produzem doutores (até eu agora já fui promovido..,) . Em vez de promover pesquisa, emitem diplomas. Outra desgraça de uma nação pobre é o modelo único de sucesso que vendem às novas gerações. E esse modelo está bem patente nos vídeo-clips que passam na nossa televisão: um jovem rico e de maus modos, rodeado de carros de luxo e de meninas fáceis, um jovem que pensa que é americano, um jovem que odeia os pobres porque eles lhes fazem lembrar a sua própria origem.

É preciso remar contra toda essa corrente. É preciso mostrar que vale a pena ser honesto. É preciso criar histórias em que o vencedor não é o mais poderoso. Histórias em que quem foi escolhido não foi o mais arrogante mas o mais tolerante, aquele que mais escuta os outros."

(Mia Couto)