A
popularização da tecnologia e dos meios digitais está mudando a maneira
como as pessoas interagem com outros objetos. Um estudo recente
realizado por pediatras e terapeutas da Fundação Heart of England, do
Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra, mostra que as crianças de hoje
não conseguem segurar um lápis nas mãos.
Segundo
os pesquisadores, isso acontece porque o uso excessivo de smartphones e
tablets evita que os músculos dos dedos das crianças se desenvolvam o
suficiente para garantir a execução de movimentos como esse.“As
crianças que estão indo à escola não têm mais a mesma força e destreza
nas mãos como víamos há 10 anos atrás. Elas recebem um lápis quando
entram na escola, mas são cada vez menos capazes de segurá-lo porque não
possuem as habilidades fundamentais do movimento”, explicaSally Pane, terapeuta ocupacional pediátrica da fundação.
Para
conseguir mover um lápis, uma pessoa deve ter um controle dos músculos
finos dos dedos e movê-los ao mesmo tempo, o que não tem acontecido com
bebês e crianças pequenas. Muitas vezes os pais optam por brinquedos.
Os
pediatras explicam que algumas crianças no Reino Unido já apresentam
dificuldades para segurar canetas. Outro problema que tem crescido nos
últimos anos é a dificuldade para escrever, ainda que existam aulas de
caligrafia. “É inegável que a tecnologia mudou o mundo em que nossas
crianças estão se desenvolvendo. E apesar de haver aspectos positivos
desse novo uso, há também os impactos de uma vida mais sedentária e mais
baseada em interações virtuais, com mais crianças passando tempo
conectadas dentro de casa e menos tempo ocupando espaços ao ar livre
ativamente
Segundo
Gustavo Santos, além do TRF4, ainda haverá várias tentativas de sabotar a
administração Lula, como o semiparlamentarismo, a fraude eleitoral e até mesmo
uma eventual tentativa de golpe militar; confira sua análise
Por
Gustavo Antônio Galvão dos Santos, doutor em economia
Já
está mais do que evidente, para quem entende minimamente de comportamento
eleitoral, que será impossível acharem algum candidato que possa vencer Lula em
2018.
Aliás,
para poder impedir que Lula em 2019 vença no 1º turno, eles vão ter que colocar
como candidatos todas as celebridades disponíveis: dois juízes pavões, um
apresentador de TV, dois “gestores”, um santo, dois esquerdistas refinados,
dois esquerdistas bravos, uma fada da floresta, um messias armamentista, um
banqueiro ministro, um verde, um bando de pastores mui santos etc.
Será
um zoológico de candidatos como nas eleições de 1989. Na prática, todos contra
a vitória do Lula no primeiro 1º turno. Com muito esforço, muito dinheiro,
muitos belos discursos e muitas mentiras, talvez consigam juntos impedir que
Lula vença no primeiro turno. É o máximo que podem conseguir.
Eles
sabem disso.
O
golpe não foi dado para devolver o governo para o escolhido do povo e, assim,
correr o risco de perder as “conquistas” que Temer ofereceu aos ‘donos do
poder’. Por isso darão todos os golpes possíveis para impedir que Lula volte a
ser presidente.
Haverá
assim, pelo menos, mais 6 tentativas de golpe.
A
primeira, todo mundo já sabe, será a condenação do Lula no TRF4, onde julga o
compadre do Moro.
Enquanto
isso, tentarão dar o segundo golpe, o do parlamentarismo ou
“semipresidencialismo”.
O
terceiro seria o que o genial Wilson Ferreira do blog Cinegnose chama de bomba
semiótica. No caso, seria uma operação de sabotagem planejada teatralmente com
a grande imprensa para ser divulgada de forma espetacular. Algo que possa chocar
a Nação tipo um assassinato ou uma queda de avião. Isso pode ser contra
inimigos ou aliados em potencial de Lula. Se for contra um inimigo seria algo
que pudesse depois ser atribuído a Lula ou a algum apoiador. Se for contra um
aliado pode ser algo que elimine uma base de sustentação fundamental a Lula e
derrube a confiança de seus apoiadores. Esse alvo espetacular pode estar no
Congresso, no judiciário, nas Forças Armadas ou ser alguém que tenha
importância eleitoral. Pré-candidatos, juízes ou militares tendem a ser os
alvos mais óbvios.
A
quarta tentativa de golpe será a fraude eleitoral. O sistema de voto eletrônico
brasileiro já convive com fraudes há muito tempo e nada pode ser feito contra
elas porque o sistema é inauditável. Na prática, é possível escolher quem será
eleito, sem nenhum vestígio legalmente comprovável de fraude. Além disso, quem
vai investigar e julgar os acusados de fraude é o mesmo órgão que define todas
as regras, administra todas as urnas, seus algoritmos e toda logística da
eleição, Ou seja, quem podem fazer a fraude é quem vai julgá-la. E não é
preciso pesquisar muito para saber de que lado esse órgão está. A fraude
eleitoral em Honduras foi só mais teste antes de ser usado no Brasil.
A
quinta tentativa de golpe será militar. Um golpe militar está sendo preparado
no Brasil pelo menos desde 2013. Para isso adestraram uma parte da população
para apoiar entusiasticamente tanto um golpe militar quanto qualquer tipo de
saída através da violência. O fanatismo em torno da candidatura de Bolsonaro,
adulado como “O Mito” por seus seguidores, é só uma evidência mais óbvia.
A
sexta tentativa ocorrerá depois da reeleição de Lula em 2018. Será uma reedição
do ‘Grande Cerco contra Dilma’ após a eleição de 2014. ‘O Grande Cerco contra
Dilma’ já é uma figura clássica de golpe, quando se utiliza todas as armas
simultaneamente contra um chefe de governo.
A
sexta tentativa de golpe é a combinação das cinco acima citadas. Elas serão
redirecionadas, no caso de não serem bem sucedidas, para ao menos produzir um
Congresso e uma mídia mais hostil, um judiciário e um ministério público mais
persecutórios e um clima de ódio, divisionismo e conflito civil ainda maior.
A
sexta tentativa de golpe é a união de todas as armas golpistas articuladas para
tentar colher pequenos recuos cumulativos por parte do futuro Presidente Lula a
partir de 2019. Uma vez reeleito, à medida que Lula for cedendo espaços e
recursos de poder, perderá a credibilidade frente aos apoiadores e capacidade
de reação. Ao mesmo tempo, os recuos farão os inimigos se recuperarem dos
desgastes do governo Temer e das derrotas em múltiplas tentativas de golpe.
É a
única forma de impedirem que Lula reorganize seu novo governo a tempo de obter
resultados, consolidando novamente uma fortaleza inexpugnável de popularidade.
Se os inimigos de Lula puderem colher recuos, vacilações e quebras de promessas
como colheram de Dilma em 2015, poderão novamente acumular recursos de poder e
credibilidade junto ao povo para um golpe definitivo.
Todas
essas tentativas de golpe acontecerão. É tão inevitável quanto uma picada em
quem confia em escorpião. Os inimigos da vontade popular estão obcecados e tem
à disposição todos os recursos necessários para promover esses golpes com,
aparentemente, um mínimo custo ou risco.
Mas
acredito que todos esses golpes fracassarão. Lula até agora teve muita sorte.
Algo nos diz que essa sorte não acabará enquanto ele estiver defendendo as
causas básicas do povo.
Todavia,
sem um dispositivo amplo de defesa, cada golpe poderá causar grandes feridas e
sofrimento. E não convém só contar com a sorte.
O
antídoto aos golpes, um dispositivo amplo de defesa e reação contra esses
golpes vai muito além de campanhas eleitorais. É preciso fortalecer vínculos
sólidos com um conjunto de aliados mais amplo. Aliados que possam reagir contra
cada uma das tentativas de golpe citadas, mas que sejam realmente leais, mesmo
após as eleições.
Uma
lealdade real só pode ser conquistada com a comunhão de ideais, caminhos,
projetos e utopias. Hoje o PT ainda está oferecendo muito pouco nesse sentido.
Está se baseando quase que apenas na recuperação das conquistas de seus
governos.
Isso
é insuficiente para conquistar partes importantes dos empresários produtivos,
da classe média, do funcionalismo público, das forças armadas, da intelectualidade,
dos outros partidos e políticos de esquerda, dos sindicatos, movimentos sociais
recalcitrantes e dos jovens.
Todos
esses setores se sentem parcialmente descontentes, não contemplados ou pouco
entusiasmados com o simples retorno ao que foi o governo Lula. Promessas
específicas a cada um desses setores tendem a ter um impacto pequeno porque
carecem de credibilidade. Além disso, podem gerar contradições e objeções
mútuas entre esses grupos ou, ainda, com outros grupos de aliados fiéis ou
potenciais de Lula.
O
antídoto a todos esses golpes é conseguir um discurso unificado que garanta
aliados fiéis em todos os grupos citados acima e que, não por acaso, são base
de apoio fundamental em todos os tipos de golpe.
Esse
discurso precisa se alimentar de um arcabouço e uma narrativa que sintetize e
unifique o interesse de todos esses grupos e ao mesmo tempo seja já conhecida,
compreensível e crível.
Essa
narrativa existe e é compatível com as propostas e história do Lula. É o
nacional-desenvolvimentismo de Vargas, de Juscelino, de Jango, de Brizola e de
parte dos militares nacionalistas. O nacional-desenvolvimentismo propõe altas
taxas de crescimento, investimento pesado em tecnologia e infraestrutura, além
de Estado e Funcionalismo Fortes. Essas políticas favorecem os setores mais
receosos em relação a Lula.
Se
Lula abraçar com credibilidade esse discurso, terá em mãos o antídoto que
eliminará boa parte do isolamento e da indiferença em relação a ele nos grupos
que podem desmontar os golpes vindouros antes que causem grandes danos. Essa
credibilidade precisa ser conquistada por meio da atração de aliados leais que
sejam historicamente ligados ao discurso e aos interesses beneficiados pelo
nacional-desenvolvimentismo. Caso contrário, será visto como um discurso
meramente eleitoreiro.
Se
nenhum desses golpes der certo – como os planos do Cebolinha para roubar o
coelhinho da Mônica – Lula tomará posse em 2019 e fará seu melhor governo até
2022, quando o Brasil terá muito que comemorar no bicentenário de nossa
independência!
PEC do Teto dos Gastos inviabilizou a educação pública no país, diz
Dermeval Saviani
Em
entrevista ao Brasil de Fato, o filósofo e pedagogo critica as medidas de Temer
e aponta caminhos para a resistência
Mauro Ramos Brasil de Fato | São Paulo (SP), 8 de Dezembro de
2017 às 10:57
Para Saviani / TV Contee
Dermeval Saviani, tem 73 anos. Ele é considerado o
criador da chamada Pedagogia Histórico-Crítica, que visa, segundo
expressa o próprio autor no livro A pedagogia no Brasil: história e teoria (2008,
Autores Associados), que o ponto de referência da educação seja o compromisso
de transformação da sociedade em vez de sua manutenção ou perpetuação.
Autor de diversas obras sobre a questão educativa
no Brasil, Saviani tem uma visão crítica sobre as políticas que vem sendo
implementadas sob o governo golpista de Michel Temer (PMDB).
Em entrevista ao Brasil de Fato, Saviani
afirmou, por exemplo, que a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55,
conhecida como PEC do Teto dos Gastos, que congela os investimentos públicos
durante 20 anos, inviabilizou o Plano Nacional de Educação (PNE), criado em
2014 pelo governo da presidenta Dilma Rousseff. O PNE previa aumentar o valor
dos investimentos na educação pública gradativamente em um período de dez anos.
O pedagogo, que é professor emérito da Universidade
de campinas (UNICAMP), também criticou a reforma do Ensino Médio decretada
neste ano pelo governo Temer através da lei n.º 13.415, e cuja implementação
pode ocorrer entre 2019 e 2020. Para Saviani, a reforma significa um retrocesso
que nos levaria para a década de 1940, já que as atuais mudanças propostas são
comparáveis às leis orgânicas criadas nessa época, que previam um ensino
secundário diferenciado para “elites condutoras”, e outro para "o povo
conduzido", conforme explica.
Durante a entrevista, Saviani ainda falou sobre a
iniciativa chamada de “Escola Sem Partido”, a qual considera “uma proposta que
procura se sintonizar com a visão fundamentalista das seitas religiosas”, e
apontou caminhos para a construção de resistências às políticas de retrocessos
que estão impactando na educação brasileira.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: Em sua fala recente, você citou
diversos retrocessos do governo golpista de Michel Temer. Um deles é a
inviabilização do Plano Nacional de Educação de 2014. Por que ele ficou
inviabilizado e quais as consequências?
Dermeval Saviani: Um dos
pontos chaves que provocou o golpe foram os interesses econômicos do sistema
financeiro, daí o foco na dívida e nas contas públicas, para fazer caixa, para
fazer o superávit primário, para o pagamento dos bancos. Isto levou àquela
emenda constitucional, a chamada PEC do Fim do Mundo, que congelou por 20 anos
os gastos públicos, limitada apenas à inflação do ano anterior.
Então, isto inviabiliza o Plano Nacional de Educação
(PNE) porque as metas do plano estão vinculadas aos recursos financeiros. Uma
das metas principais, a meta 20, que determinava atingir 7% do PIB [para o
investimento na educação] nos primeiros cinco anos, chegando a 10% ao final do
período de dez anos. Como o plano foi aprovado em 2014, então a meta de 10% do
PIB, deveria ser atingida até 2024.
Com a aprovação da emenda constitucional por 20
anos, impedindo investimentos públicos, e iniciando-se a partir de 2017, isto
conduz essa limitação até 2037. Como o plano vence em 2024, as metas ficaram
inviabilizadas; algumas delas que deveriam ser atingidas no prazo de 2 anos,
portanto em 2016, já venceram e não foram atingidas, e aquelas cujo vencimento
se estende até 2024, também estão inviabilizadas por conta dessa PEC.
O senhor critica o fato da reforma do Ensino Médio
ter sido feita sem diálogo com os atores principais da educação. Quais os
problemas que apresenta esta reforma?
Essa é uma reforma que, na verdade, implica um
retrocesso para a década de 1940, quando estava delimitada a formação
profissional de um lado e a formação das elites de outro. Então, em 1942, o
decreto que é conhecido como Lei Orgânica do Ensino Secundário, determinava que
o ensino secundário se destinava às elites condutoras, e nesse mesmo ano de
1942, foi baixado um outro decreto, conhecido como Lei Orgânica do Ensino
Industrial, regulando o ensino industrial, com o mesmo período de duração do
ensino médio, quatro anos de primeiro ciclo, chamado ginásio, e três anos do
segundo ciclo, o colegial, para formar os chamados técnicos de nível médio. Se
o ensino secundário era destinado às elites condutoras, infere-se que o ensino
profissional era destinado ao povo conduzido. Em 1942 foi a Lei Orgânica do
Ensino Industrial, e em 1943 a do Ensino Comercial, depois em 1946 saiu a do
Ensino Agrícola.
No caso dessa reforma atual, eles preveem cinco
itinerários: os quatro primeiros correspondem àquelas áreas do antigo ensino
secundário, e o último é o ensino profissional. Argumenta-se que esses itinerários
são para flexibilizar o curso e permitir a escolha dos alunos. Mas isso é um
outro absurdo porque estariam atribuindo a adolescentes de 15 anos, a
responsabilidade de definirem o seu percurso, os seus projetos de vida.
Como é que um adolescente de 15 anos vai ter um
projeto de vida para poder escolher já entre os cinco itinerários, àquele que
corresponde ao que ele pretende desenvolver na sociedade? Nós sabemos que os
jovens de 18, 20 anos que ingressam no ensino superior não têm clareza ainda da
opção.
Então, na verdade, isto por um lado é uma
justificativa falsa porque a tendência é que a maioria vá para esse itinerário
profissional; inclusive, segundo a justificativa que normalmente se apresenta com
esse itinerário ele teria imediatamente a chance de ter um emprego, enquanto
que nos outros itinerários ele dependeria de ir para o ensino superior. De
outro lado, não há garantia de que as escolas ofereçam os cinco itinerários.
Então, a tendência vai ser oferecer dominantemente o quinto itinerário de
formação profissional, e algum dos outros de forma mais restrita.
Por detrás disto está o entendimento de que a
grande maioria vai para aquelas profissões de caráter não-intelectual, que
implica maior precariedade e salários mais baixos. Então, a diferença entre as
elites condutoras e a população trabalhadora de modo geral, proclamada lá na
reforma de 1942, tende a se acentuar com uma proposta como essa.
Você têm afirmado que a proposta da "Escola
Sem Partido" é, na verdade, uma proposta de Escola de Partidos, ao ser uma
iniciativa de partidos da direita. Quais são os riscos de propostas como esta?
Quando esse movimento de Escola Sem Partido
procurou traduzir em projetos de lei, tanto no Congresso Nacional, como nas
Assembleias e nas Câmaras Municipais, [percebeu-se que] trata-se de uma
proposta visando a cercear a formação crítica dos alunos por parte dos
professores. Uma proposta que visa a cercear a liberdade de pensamento, que é
prevista como um direito na Constituição. Uma proposta que procura se sintonizar
com a visão fundamentalista das seitas religiosas, pretendendo que os
professores nas escolas, se limitem a uma formação isenta de criticidade e de
capacidade analítica dos alunos. Então, se trata de uma proposta que visa, em
última instância, a conformar a população à ordem estabelecida, e nesse
sentido, é uma proposta conservadora e mais do que isso, reacionária.
Por último, o senhor vem falando da necessidade de
"resistências ativas" no âmbito educativo. O que já está sendo feito
nesse sentido e quais elementos devem ser levados em conta no futuro próximo
para fortalecer estas resistências?
O que eu venho propondo é a retomada dos Fóruns em
Defesa da Educação Pública, tanto no âmbito local, como no regional, no nível
dos estados, e no nível nacional. Esses fóruns são uma experiência que já
aconteceu, como o Fórum em Defesa da Escola Pública na Constituinte, que as
propostas dos educadores para figurar no capítulo da educação na Constituição
foram apresentadas, e, de fato, conseguiu-se que praticamente a totalidade
fosse incorporada à Constituição.
Depois, esse fórum se manteve na discussão da LDB
[Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], e isto possibilitou alguns
avanços na tramitação na Câmara dos Deputados. Entre 1989, quando começou a tramitação,
o projeto foi encaminhado como uma novidade porque, tradicionalmente, os
projetos de lei de educação são de iniciativa do Executivo, mas nesse caso, em
dezembro de 1988, deu entrada na Câmara Federal, o projeto de LDB oriundo do
movimento dos educadores.
E aí tramitou de 1989 até 1994, quando foi aprovado
na Câmara dos Deputados, com idas e vindas, havia o Centrão lá fazendo
resistência, impedindo, por exemplo, que o título de Sistemas Nacionais de
Educação fosse introduzido, então mudou-se para Organização da Educação
Nacional, mas com alguns avanços importantes. Só que aí, passando para o
Senado, veio a nova legislatura com o governo FHC [Fernando Henrique Cardoso],
que assumiu em março de 1995, e todo esse trabalho foi posto de lado e apresentado
um substitutivo, de iniciativa do senador Darcy Ribeiro, articulado com o MEC
[Ministério da Educação e Cultura], sendo aprovado e resultando na atual LDB
que, do ponto de vista dos educadores, apresenta vários limites. E aí a
mobilização continuou com os Congressos Nacionais de Educação que elaboraram
uma proposta de Plano Nacional de Educação, que também se antecipou do governo.
Então, esse é um movimento de resistência que
avança em alguns momentos, em outros momentos acaba não conseguindo muitos avanços,
mas que é necessário para evitar os retrocessos e retomar os avanços que os
educadores vêm defendendo já há várias décadas como necessários para o
desenvolvimento da educação pública e o atendimento das necessidades
educacionais da população.
É importante não só retomar, mas ampliar, não ser
fóruns organizados apenas para as entidades do campo educacional, mas
incorporando também as entidades do campo sindical, dos sindicatos dos
trabalhadores e dos movimentos sociais populares, para reforçar essa mobilização
e, nesse sentido, fazer reverter as medidas retrógradas que o atual governo vem
tomando.
Professor
gosta de “ensinar”. Confunde com aprender, porque acha que aprender deriva de
ensinar. Daí o acento tão obcecado em aula, que os grevistas aproveitam para
badalar: greve significa suspensão de aula. O “resto” pode funcionar, menos
aula, pois acha-se que sem aula a escola não existe. Escola é lugar de aula, é
um conjunto arquitetônico de salas de aula e o professor tem como função
central “dar aula”. Ainda não acordamos para um tipo totalmente diferente de
escola – um lugar para estudar, ler, pesquisar, elaborar, exercitar autoria,
argumentar, apresentar ensaios etc. Chamamos de “estudante” alguém que pode
fazer muita coisa na escola, menos “estudar” – sua função básica é escutar
aula, tomar nota e fazer prova. Depois desse besteirol, vem um diploma (vazio).
Este é o “sistema de ensino” vigente, que os dados do IDEB castigam
veementemente – está em queda livre, também na escola privada (em especial no
ensino médio e nos anos finais) – mas o MEC salvaguarda como o tesouro
educacional do país.
Professor
como “ensinador” esvaiu-se, a ponto de haver já faculdade “sem professor”,
concebida por bilionário francês, primeiro em Paris, agora também no Vale do
Silício, somente para a área de programação digital e similares, e, ainda,
gratuita. É uma área tradicionalmente autodidata – lembremos que computador
começou com partes soltas agregadas por interessados que sabiam programar
digitalmente. Um experimento sui generis nesta área também chamou a atenção:
Computer Clubhouse (Kafai et alii, 2009. Demo, 2012) – após a aula, estudantes
pobres se reúnem numa sala grande com mais ou menos 25 computadores de bom
porte, para exercitar autorias digitais (animação, robótica, editoração,
coding, videogames etc.), onde não pode haver aula, nem professor, nem aula,
prova e repasse. Ao centro do recinto há uma mesa e tem um “mentor”, para
organizar a “bagunça” (regras de jogo). Visto como experimento muito exitoso,
mostra que aprender é atividade de quem aprende – não está na aula do
professor. Este é “mediador”, como sempre se afirmou em educação. Os
adolescentes aprendem juntos, dos mais experimentados, montando sua autoria
passo a passo. Aula nunca fez qualquer falta.
Mesmo
assim, não comungo com a ideia de acabar com professor. Ao contrário. É figura
fundamental, mas como “aprendiz”, parceiro, orientador, avaliador, ou seja,
“mediação”. Ocorre algo similar com pais e progenitores: são mediadores, mas
fundamentais. A neurociência – inteira – sustenta esta ideia. Mas a escola acha
que pode “ensinar”, só ensinar, como se fosse um “cursinho”, daqueles privados
oferecidos a milhares de estudantes para concurso ou vestibular, onde só há
aula… O IDEB tem mostrado a inépcia desta proposta, em especial no Ensino Médio
da escola privada: além não atingir a meta de 2015, regride desde 2013. Mas o
império do ensino não se abala, porque continua sendo a Meca do vestibular e do
concurso. Professor tem como compromisso pedagógico cuidar da autoria dos
estudantes, todo dia, avaliando-o por aquilo que produz. A escola vale,
concretamente, pela produção estudantil, não pela aula docente. A razão é
clarividente: aprendizagem acontece na mente do estudante que estuda, não na
aula do professor. Esta é perfeitamente descartável, embora ele, não.
A
mania do ensino avassala a escola. Enquanto os dados indicam que é um desastre
sonoro e provocativo tocamos esta charanga impavidamente, como a orquestra do
Titanic – o barco está afundando, mas para desviar a atenção tocamos com tanto
maior furor! Professor é referência importantíssima na escola, mas não no papel
de “ensinador” – este se esgotou. O que não falta na escola é, precisamente,
ensino. O estudante aprende quando, por motivação intrínseca, se dedica a
estudar e a outras atividades autorais, porque aprendizagem só sucede quando
autoria emerge. Assim, papel docente é provocar esta autoria no estudante. Não
pode ler, estudar, pesquisar por ele. Uma vez, o MEC resolveu passar o ensino
fundamental de oito para nove anos. Qual o resultado? Os anos finais estão em
bancarrota, ou seja, a proposta não foi só inepta, foi contraproducente. Só
atrapalhou os estudantes, porque não faz sentido aumentar aula. A maneira mais
eficaz de reduzir aprendizagem é aumentar aula.
Mas
não há qualquer sinal oficial de mudança, porque o sistema está montado na
aula. Mantém-se porque é o palco preferido docente, contando com público cativo
(nem tanto hoje em dia), sistemática diária, afagos no ego, pretenso status
social etc. A cada momento o MEC pretende “reformar” alguma coisa neste sistema
caduco de ensino, como foi a “reforma do ensino médio” recente, indicando que o
problema seria curricular. É, em parte, mas nem de longe o problema maior. Este
é que praticamente ninguém aprende, exigindo mudanças “pedagógicas” radicais
que passam, entre outras, coisas pela reinvenção do professor; de “auleiro”
precisa passar a “mediador” de atividades autopoiéticas dos estudantes, como
sugere a neurociência. Não há qualquer perspectiva de que tais “reformas”
reformem alguma coisa importante, mesmo implicando investimentos. A proposta
não acarreta qualquer avanço pedagógico – teremos o mesmo IDEB, muito
provavelmente piorado. Bastaria ver o último PISA (2016). A escola baseada em
aula é uma fraude oficial.
Podemos
sugerir que o problema tem a ver com o professor, ainda que não em correlação
linear (que não existe, a bem da verdade). Quando o professor não aprende –
apenas teve aula na faculdade – faz na escola o que fizeram com ele na
faculdade – só dá aula, parecendo-lhe o pináculo de sua função escolar. Vai se
consolidando a prática desastrosa: quem não aprende, dá aula. O licenciado em
matemática não pode ser diretamente responsabilizado pela calamidade pública
que é matemática na escola, mas tem a ver com o problema indiretamente. A
pergunta se instala imediatamente: por que não se aprende matemática? Em parte
é porque o professor, não tendo aprendido matemática, não sabendo o que é
aprender matemática, mas “treinado” alegremente em dar aula de matemática,
massacra matemática. Este resultado é ainda mais flagrante quando se comparam
resultados com os anos iniciais, onde trabalha o pedagogo – sua matemática
funciona bem melhor (está, em geral, em ascensão). Tem-se, então, a impressão
de que a licenciatura atrapalha visivelmente o professor de matemática. Aula
não falta. Só tem. Não existe aprendizagem. Assim, diria que os dados sugerem
dois desastres conjugados: matemática e aprendizagem estão em extinção.
Ao
final, porém, se professor é problema, é principalmente a melhor solução.
Precisamos cuidar dele, religiosamente, também porque é o mediador maior de
qualquer inovação escolar. O desafio é fazer dele um pesquisador, cientista,
autor, oferecendo chances de exercitar autoria com devida educação científica.
Esta colocação já descortina vazios clamorosos de sua formação original: nunca
foi levado a produzir ciência, a estudar métodos e técnicas, bem como
metodologia científica, a ser avaliado por ensaios (não por provas), não sabe
pesquisar, apenas reproduzir. Foi vítima de um “anticurso”, cuja função mais
ostensiva pareceu ser atrapalhar sua aprendizagem. Chega à escola literalmente
“pelado”, sem eira nem beira, totalmente despreparado para a função, também
porque o curso nunca lhe deu chance de “estágio” verdadeiro. É amador. Todo
amador vive de aula. Cumpre agora fazer dele um profissional, não do ensino,
mas da aprendizagem. Não é enigma. Todo professor, mesmo muito destituído, é do
ramo. Sabe, de alguma forma, o que é conhecimento autorrenovador, aprendizagem
autoral, pesquisa e educação científica. Não teve oportunidade. Precisamos
garantir isso a ele, para que possa engendrar um estudante pesquisador,
cientista, autor.
09/12/17,
14:29 - JKim: Interessante
09/12/17,
14:30 - EVANDIR: Pedagogia de Projetos... seria uma saída
09/12/17,
14:33 - JKim: Uma possibilidade mas a maioria de nós odeia projetos