Páginas
- Início
- A IMPORTÂNCIA DO DIÁLOGO...
- CULTURA DA PAZ!
- E VIVA A DIFERENÇAAAA!!!!!!
- ESTATUTOS DO HOMEM + DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS!
- DE OLHO NO 22 DE ABRIL.....
- SITES E LINKS INTERESSANTES...
- SUGESTÃO DE MÚSICAS & VÍDEOS/FILMES
- A RELAÇÃO OPRESSOR-OPROMIDO, SEGUNDO PAULO FREIRE!
- O QUE É IDEOLOGIA, SEGUNDO MARILENA CHAUÍ!
- DF PELA IGUALDADE RACIAL & CAMPANHA "POR UMA INFÂNCIA SEM RACISMO"!
- CONFERÊNCIAS DISTRITAL E NACIONAL DE EDUCAÇÃO - CDE/CONAE!
- A INQUESTIONABILIDADE DAS COTAS!
- GESTÃO DEMOCRÁTICA: ACESSE O MATERIAL DISPONÍVEL!
terça-feira, 20 de novembro de 2018
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
A GÊNESE DE UMA CATEGORIA
A GÊNESE DE UMA CATEGORIA: Em entrevista ao CLAM, Rogério Junqueira, pesquisador especialista em políticas educacionais, discute as origens da expressão “ideologia de gênero”, categoria política que opera como pivô de um discurso reacionário antigênero.
segunda-feira, 5 de novembro de 2018
sábado, 3 de novembro de 2018
Pra não dizer que não falei das flores
Música Pra não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré
A música "Pra não dizer que não falei das
flores" foi escrita e cantada por Geraldo Vandré em 1968, conquistando o
segundo lugar no Festival Internacional da Canção desse ano. O tema, também
conhecido como "Caminhando", se tornou um dos maiores hinos da
resistência ao sistema ditatorial militar que vigorava na época.
A composição foi censurada pelo regime e Vandré foi
perseguido pela polícia militar, tendo que fugir do país e optar pelo exílio
para evitar represálias.
Letra da
música
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Somos
todos iguais braços dados ou não
Nas
escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Vem,
vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe
faz a hora, não espera acontecer
Pelos
campos há fome em grandes plantações
Pelas
ruas marchando indecisos cordões
Ainda
fazem da flor seu mais forte refrão
E
acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem,
vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe
faz a hora, não espera acontecer
Há
soldados armados, amados ou não
Quase
todos perdidos de armas na mão
Nos
quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer
pela pátria e viver sem razão
Vem,
vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe
faz a hora, não espera acontecer
Nas
escolas, nas ruas, campos, construções
Somos
todos soldados, armados ou não
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Somos
todos iguais braços dados ou não
Os amores
na mente, as flores no chão
A certeza
na frente, a história na mão
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Aprendendo
e ensinando uma nova lição
Vem,
vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe
faz a hora, não espera acontecer
Análise e
interpretação
Com a sonoridade de um hino, o tema segue um
esquema rimático simples (A-A-B-B, ou seja, o primeiro verso rima com o
segundo, o terceiro com o quarto e assim por diante). Utiliza também um
registro de linguagem corrente, com uma letra fácil de memorizar e transmitir a
outras pessoas.
Assim, parece fazer referência às canções que eram
usadas em passeatas, protestos e manifestações contra o regime, que se
espalhavam pelo país no ano de 1968. A música era, então, usada como um
instrumento de combate, que pretendia divulgar, de forma direta e concisa,
mensagens ideológicas e de revolta.
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Somos
todos iguais braços dados ou não
Nas
escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
A primeira estrofe assinala isso, com os verbos
"caminhando e cantando", que remetem diretamente para a imagem de uma
passeata ou um protesto público. Lá, os cidadãos são "todos iguais",
mesmo não existindo relação entre si ("braços dados ou não").
Referindo "escolas, ruas, campos,
construções", Vandré pretendia demonstrar que pessoas de todos os extratos
sociais e com diferentes ocupações e interesses estavam juntas e marchavam pela
mesma causa. É evidente a necessidade de união que é convocada e a lembrança de
que todos queriam a mesma coisa: liberdade.
Vem,
vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe
faz a hora, não espera acontecer
O refrão, repetido várias vezes ao longo da música,
é um apelo à ação e à união. Geraldo fala diretamente com quem escuta a
música, chamando para a luta: "Vem". Com o uso da primeira pessoa do
plural (em "vamos embora"), imprime um aspeto coletivo à ação,
lembrando que seguirão juntos no combate.
Ao afirmar que “esperar não é saber”, o autor
sublinha que quem está consciente da realidade do país não pode aguardar de
braços cruzados que as coisas mudem. A mudança e a revolução não serão
entregues de bandeja para ninguém, é necessário agirem rapidamente (“quem sabe
faz a hora, não espera acontecer”).
Pelos
campos há fome em grandes plantações
Pelas
ruas marchando indecisos cordões
Ainda
fazem da flor seu mais forte refrão
E
acreditam nas flores vencendo o canhão
Nesta estrofe, é denunciada a miséria em que
os agricultores e camponeses viviam e a exploração a que estavam sujeitos
("fome nas grandes plantações"). Existe também uma forte crítica aos
pacifistas que pretendiam resolver a crise política com diplomacia e comum
acordo, organizados em "indecisos cordões".
Os ideais de "paz e a amor" promovidos
pelo movimento da contracultura hippie, o flower power, são
simbolizados pelas flores (o "mais forte refrão"). É sublinhada a sua
insuficiência contra o "canhão" (a força e a violência da polícia
militar).
Há
soldados armados, amados ou não
Quase
todos perdidos de armas na mão
Nos
quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer
pela pátria e viver sem razão
Embora as forças militares simbolizassem o inimigo,
o poder ditatorial, a música não desumaniza os soldados. Pelo contrário, lembra
que estavam “quase todos perdidos de armas na mão”, ou seja, usavam da
violência, matavam, mas nem eles mesmos sabiam porquê. Apenas obedeciam ordens
cegamente, por causa da lavagem cerebral que sofriam: a "antiga
lição / De morrer pela pátria e viver sem razão".
Os soldados, levados por um espírito de falso
patriotismo, tinham que dedicar suas vidas e muitas vezes morrer em função
do sistema que protegiam e do qual eram também vítimas.
Nas
escolas, nas ruas, campos, construções
Somos
todos soldados, armados ou não
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Somos
todos iguais braços dados ou não
Os amores
na mente, as flores no chão
A certeza
na frente, a história na mão
Caminhando
e cantando e seguindo a canção
Aprendendo
e ensinando uma nova lição
Na última estrofe, é reforçada a mensagem de
igualdade entre todos os cidadãos e a urgência de partirem juntos para a luta,
porque só através do movimento organizado poderia chegar a revolução.
A música lembrava que deviam avançar com os
"amores na mente", pensando nas pessoas que amavam e foram vítimas da
repressão militar. Para serem vitoriosos, era necessário deixarem "as
flores no chão", ou seja, abandonarem as abordagens pacifistas.
Estava nas suas mãos "a história", a
possibilidade de mudar a realidade do país e o futuro para todos os brasileiros
. Deveriam continuar "caminhando e cantando" e "aprendendo e
ensinando uma nova lição", transmitindo o seu conhecimento, despertando outras
pessoas para a militância.
Significado
da música
"Pra não dizer que não falei das flores"
é um convite à resistência política radical, um chamamento para todas as
formas de luta necessárias para derrubar a ditadura.
Geraldo Vandré fala de flores para tentar mostrar
que não é suficiente usar "paz e amor" para combater armas e canhões,
sublinhando que a única forma de vencerem era a união e o movimento organizado.
Contexto
histórico
1968:
repressão e resistência
Em 1968, o Brasil enfrentava um dos piores momentos
de repressão política, a instituição do AI-5: um conjunto de leis que conferiam
poderes quase ilimitados ao regime.
Face ao autoritarismo e diversos episódios de
violência policial, os estudantes universitários começaram a se mobilizar,
fazendo protestos públicos que eram recebidos com agressões, mandatos de prisão
e, por vezes, assassinatos.
Aos poucos, esses protestos foram se espalhando pelo
país e outros grupos se juntaram ao movimento: os artistas, os jornalistas, os
padres, os advogados, as mães, etc.
Censura
Retrato de atrizes brasileiras em protesto contra a
censura.
Apesar da censura que ameaçava, proibia e
perseguia, a música se tornou um dos veículos artísticos usados para transmitir
mensagens de cariz político e social.
Os interpretes estavam conscientes do perigo que
corriam quando divulgavam publicamente as suas opiniões, mas arriscavam sua
vida para desafiar o poder instituído e passar uma mensagem de força e coragem
para os brasileiros.
Muitos anos depois do Festival Internacional da
Canção de 1968, um dos jurados confessou numa entrevista que "Pra não
dizer que não falei das flores" teria sido o tema vencedor. Vandré ficou
em segundo lugar devido às pressões políticas que a organização do evento e a
TV Globo, rede que emitia o programa, sofreram.
Geraldo
Vandré: exílio e afastamento da vida pública
Geraldo
Vandré no Festival Internacional da Canção em 1968.
As consequências possíveis para quem desafiava o
poder militar eram a prisão, a morte ou, para quem conseguia escapar, o exílio.
Por causa de "Pra não dizer que não falei das
flores", Geraldo Vandré começou a ser vigiado pelo Departamento de Ordem
Política e Social e teve que fugir.
Viajou por vários países como Chile, Argélia,
Alemanha, Grécia, Áustria, Bulgária e França. Quando regressou ao Brasil, em
1975, preferiu se afastar das luzes da ribalta e se dedicar à carreira de
advogado.
Sua canção e a mensagem política que ela
transmitia, no entanto, entraram para a história da música e da resistência
política brasileira.
Retirado de: https://www.culturagenial.com/musica-pra-nao-dizer-que-nao-falei-das-flores-de-geraldo-vandre/
Youtube: https://youtu.be/A_2Gtz-zAzM
sexta-feira, 2 de novembro de 2018
quarta-feira, 31 de outubro de 2018
"Pai afasta de nós esse cálice/cale-se!"
Música
Cálice de Chico Buarque
A música "Cálice" foi escrita em 1973 por
Chico Buarque e Gilberto Gil, sendo lançada apenas em 1978. Devido ao seu
conteúdo de denúncia e crítica social, foi censurada pela ditadura, sendo
liberada cinco anos depois. Apesar do desfazamento temporal, Chico gravou a
canção com Milton Nascimento no lugar de Gil (que tinha mudado de gravadora) e
decidiu incluir no seu álbum homônimo.
Capa do disco "Chico
Buarque" de 1978.
"Cálice" se tornou num dos mais famosos hinos
de resistência ao regime militar. Trata-se de uma canção de protesto que
ilustra, através de metáforas e duplos sentidos, a repressão e a violência do
governo autoritário.
Conheça também a análise
da música Construção de Chico Buarque.
Música e letra
Cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Como
beber dessa bebida amarga
Tragar a
dor, engolir a labuta
Mesmo
calada a boca, resta o peito
Silêncio
na cidade não se escuta
De que me
vale ser filho da santa
Melhor
seria ser filho da outra
Outra
realidade menos morta
Tanta
mentira, tanta força bruta
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Como é
difícil acordar calado
Se na
calada da noite eu me dano
Quero
lançar um grito desumano
Que é uma
maneira de ser escutado
Esse
silêncio todo me atordoa
Atordoado
eu permaneço atento
Na
arquibancada pra a qualquer momento
Ver
emergir o monstro da lagoa
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
De muito
gorda a porca já não anda
De muito
usada a faca já não corta
Como é
difícil, pai, abrir a porta
Essa
palavra presa na garganta
Esse
pileque homérico no mundo
De que
adianta ter boa vontade
Mesmo
calado o peito, resta a cuca
Dos
bêbados do centro da cidade
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
Talvez o
mundo não seja pequeno
Nem seja
a vida um fato consumado
Quero
inventar o meu próprio pecado
Quero
morrer do meu próprio veneno
Quero
perder de vez tua cabeça
Minha
cabeça perder teu juízo
Quero
cheirar fumaça de óleo diesel
Me
embriagar até que alguém me esqueça
Análise da letra
Refrão
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
Pai,
afasta de mim esse cálice
De vinho
tinto de sangue
A música começa com a referência de uma passagem
bíblica: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice" (Marcos
14:36). Lembrando Jesus antes do calvário, a citação convoca também as ideias
de perseguição, sofrimento e traição.
Usada como forma de pedir que algo ou alguém
permaneça longe de nós, a frase ganha um significado ainda mais forte quando
reparamos na semelhança de sonoridade entre "cálice" e
"cale-se". Como se suplicasse "Pai, afasta de mim esse cale-se",
o sujeito lírico pede o fim da censura, essa mordaça que o silencia.
Assim, o tema usa a paixão de Cristo como
analogia do tormento do povo brasileiro nas mãos de um regime repressor e
violento. Se, na Bíblia, o cálice estava repleto do sangue de Jesus, nesta
realidade, o sangue que transborda é o das vítimas torturadas e mortas pela
ditadura.
Primeira estrofe
Como
beber dessa bebida amarga
Tragar a
dor, engolir a labuta
Mesmo
calada a boca, resta o peito
Silêncio
na cidade não se escuta
De que me
vale ser filho da santa
Melhor
seria ser filho da outra
Outra
realidade menos morta
Tanta
mentira, tanta força bruta
Infiltrada em todos os aspectos da vida, a
repressão se fazia sentir, pairando no ar e atemorizando os indivíduos. O sujeito
expressa a sua dificuldade em beber essa "bebida amarga" que lhe
oferecem, "tragar a dor", ou seja, banalizar o seu martírio, aceitá-lo
como se fosse natural.
Refere também que tem que "engolir a
labuta", o trabalho pesado e mal remunerado, a exaustão que é obrigado a
aceitar calado, a opressão que já se tornou rotina.
No entanto, "mesmo calada a boca, resta o
peito" e tudo o que ele continua sentido, ainda que não possa se expressar
livremente.
Propaganda do regime militar.
Mantendo o imaginário religioso, o eu lírico se diz
"filho da santa" o que, neste contexto, podemos entender como a
pátria, retratada pelo regime como intocável, inquestionável, quase sagrada.
Ainda assim, e numa atitude desafiadora, afirma que preferia ser "filho da
outra".
Pela ausência de rima, podemos concluir que os
autores queriam incluir um palavrão mas foi necessário alterar a letra para não
chamar a atenção dos censores. A escolha de uma outra palavra que não rima deixa
implícito o sentido original.
Se demarcando totalmente do pensamento condicionado
pelo regime, o sujeito lírico declara sua vontade de ter nascido em "outra
realidade menos morta".
Queria viver sem ditadura, sem "mentira"
(como o suposto milagre econômico que o governo aclamava) e "força
bruta" (autoritarismo, violência policial, tortura).
Segunda estrofe
Como é
difícil acordar calado
Se na
calada da noite eu me dano
Quero
lançar um grito desumano
Que é uma
maneira de ser escutado
Esse
silêncio todo me atordoa
Atordoado
eu permaneço atento
Na
arquibancada pra a qualquer momento
Ver
emergir o monstro da lagoa
Nestes versos, vemos a luta interior do sujeito
poético para acordar em silêncio a cada dia, sabendo das violências que
aconteciam durante a noite. Sabendo que, mais cedo ou mais tarde, também se
tornaria vítima.
Chico faz alusão a um método bastante usado pela
polícia militar brasileira. Invadindo casas durante a noite, arrastava
"suspeitos" das suas camas, prendendo uns, matando outros, e fazendo
sumir os restantes.
Perante todo esse cenário de horror,
confessa o desejo de "lançar um grito desumano", resistir, combater,
manifestar sua raiva, na tentativa de "ser escutado".
Protesto pelo final da censura.
Apesar de "atordoado", declara que
permanece "atento", em estado de alerta, pronto para participar da
reação coletiva.
Sem poder fazer outra coisa, assiste passivamente
na "arquibancada", esperando, temendo ,"o monstro da lagoa".
A figura, própria do imaginário das histórias infantis, representa aquilo que
nos foi ensinado que devemos temer, servindo de metáfora para a ditadura.
"Monstro da lagoa" também era uma
expressão usada para referir os corpos que apareciam boiando nas águas do mar
ou de um rio.
Terceira estrofe
De muito
gorda a porca já não anda
De muito
usada a faca já não corta
Como é
difícil, pai, abrir a porta
Essa
palavra presa na garganta
Esse
pileque homérico no mundo
De que
adianta ter boa vontade
Mesmo
calado o peito, resta a cuca
Dos
bêbados do centro da cidade
Aqui, ganância é simbolizada pelo pecado
capital da gula, com a da porca gorda e inerte como metáfora de um governo
corrupto e incompetente que não consegue mais operar.
A brutalidade da polícia, transformada em
"faca", perde seu propósito pois está gasta de tanto ferir e "já
não corta", sua força vai desaparecendo, o poder vai enfraquecendo.
Homem pichando muro com mensagem
contra a ditadura.
Novamente, o sujeito narra sua luta quotidiana em
sair de casa, "abrir a porta", estar no mundo silenciado, com
"essa palavra presa na garganta". Além disso, podemos entender
"abrir a porta" como sinônimo de se libertar, nesse caso, através da
queda do regime. Numa leitura bíblica, é também símbolo de um novo tempo.
Mantendo o tema religioso, o eu lírico questiona
para que adianta "ter boa vontade", fazendo outra referência à
Bíblia. Convoca a passagem "Paz na terra aos homens de boa vontade",
lembrando que não tem paz nunca.
Apesar de ser forçado a reprimir palavras e
sentimentos, continua mantendo o pensamento crítico,
"resta a cuca". Mesmo quando deixamos de sentir, existem sempre as
mentes dos desajustados, os "bêbados do centro da cidade" que
continuam sonhando com uma vida melhor.
Quarta estrofe
Talvez o
mundo não seja pequeno
Nem seja
a vida um fato consumado
Quero
inventar o meu próprio pecado
Quero
morrer do meu próprio veneno
Quero
perder de vez tua cabeça
Minha
cabeça perder teu juízo
Quero
cheirar fumaça de óleo diesel
Me
embriagar até que alguém me esqueça
Contrastando com as anteriores, a última estrofe
traz um laivo de esperança nos versos iniciais, com a possibilidade do
mundo não se limitar apenas àquilo que o sujeito conhece.
Percebendo que sua vida não é "fato
consumado", que está em aberto e pode seguir diversas direções, o eu
lírico reclama seu direito sobre si mesmo.
Querendo inventar seu "próprio pecado" e
morrer do "próprio veneno", afirma a vontade de viver sempre segundo
as próprias regras, sem ter que acatar ordens ou moralismos de ninguém.
Para isso, tem que derrubar o sistema opressor, a
que se dirige, no desejo de cortar o mal pela raiz: "Quero perder de vez
tua cabeça".
Sonhando com a liberdade, demonstra a extrema necessidade
de pensar e se expressar livremente. Quer se reprogramar de tudo o que a
sociedade conservadora lhe ensinou e deixar de estar subjugado a ela
("perder teu juízo").
Protesto contra a violência do
regime.
Os dois versos finais fazem alusão direta a um dos
métodos de tortura usados pela ditadura militar (a inalação de óleo
diesel). Ilustram também a uma tática de resistência (fingir perder os sentidos
para que interrompessem essa tortura).
História e significado da música
"Cálice" foi escrita para ser apresentada
no show Phono 73 que reunia, em duplas, os maiores artistas da gravadora Phonogram.
Quando submetido ao crivo da censura, o tema foi reprovado.
Os artistas decidiram cantá-la, mesmo assim,
murmurando a melodia e repetindo apenas a palavra "cálice". Acabaram
sendo impedidos de cantar e o som dos seus microfones foi cortado.
Gilberto Gil partilhou com o público, muitos anos
depois, algumas informações sobre o contexto de criação da música, suas
metáforas e simbologias.
Chico e Gil se juntaram no Rio de Janeiro para
escrever a canção que deveriam apresentar, em dupla, no show. Músicos ligados à
contracultura e à resistência, partilhavam a mesma angústia perante um
Brasil imobilizado pelo poder militar.
Gil levou os versos iniciais da letra, que tinha
escrito na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Partindo desta analogia para
descrever o suplício do povo brasileiro na ditadura, Chico continuou
escrevendo, povoando a música com referências da sua vida cotidiana.
O cantor esclarece que a "bebida amarga"
que a letra menciona é Fernet, uma bebida alcoólica italiana que Chico
costumava beber naquelas noites. A casa de Buarque ficava na Lagoa Rodrigues de
Freitas e os artistas ficavam na varanda, olhando as águas.
Esperavam ver emergir "o monstro da
lagoa": o poder repressivo que estava escondido mas pronto para atacar a
qualquer momento.
Conscientes do perigo que corriam e do clima
sufocante vivido no Brasil, Chico e Gil escreveram um hino panfletário
sustentando no jogo de palavras "cálice"/"cale-se".
Enquanto artistas e intelectuais de esquerda, usaram suas vozes para denunciar
a barbárie do autoritarismo.
Assim, no próprio título, a música faz alusão
aos dois meios de opressão da ditadura. Por um lado, a agressão física,
a tortura e a morte. Por outro, a ameaça psicológica, o medo, o controle do
discurso e, por conseguinte, das vidas do povo brasileiro.
Chico Buarque

Francisco Buarque de Hollanda (Rio de Janeiro, 19
de junho de 1944) é um músico, compositor, dramaturgo e escritor, apontado como
um dos grandes nomes da MPB (música popular brasileira). Autor de canções que
se opunham ao regime autoritário vigente (como a famosa "Apesar de
Você"), foi perseguido pela censura e pela polícia militar, acabando por
se exilar em Itália em 1969.
Quando regressou ao Brasil, continuou denunciando o
impacto social, econômico e cultural do totalitarismo, em músicas como
"Construção" (1971) e "Cálice" (1973).
Assinar:
Postagens (Atom)

